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   1 A necessidade de ser como fundamento do modelo ontológico de homem para D. W. Winnicott  Leopoldo Fulgencio *   SER, antes de tudo  D. W.Winnicott Muitas foram as propostas que procuram recolocar a psicanálise num quadro epistemológico diferente daquele dado por Freud: seja a interpretação dada por Ricoeur (procurando interpretar a psicanálise do ponto de ista !ermen"utico#, seja a de $acan (no quadro do estruturalismo e sua maneira singular de usar esta perspectia em associação com alguns formalismos matemáticos#, a de %ion (na sua proposta de reformulação da psicanálise como ci"ncia, com &ase e refer"ncia em 'ant#, ou ainda, innicott, que, sem se propor e)plicitamente essa tarefa, parece ter introdu*ido mudanças estruturais no modo de pensar a teoria do desenolimento afetio+ entre estas propostas, - na o&ra de innicott que encontramos a refer"ncia e uso da noção de ser e de continuidade de ser+ Roussillon, por e)emplo, considera que a introdução da questão do ser na psicanálise, por innicott, reali*ou uma ruptura epistemológica , ainda a ser e)plicada, a&rindo um erdadeiro canteiro de o&ras a ser desenolido (Roussillon, .//0, p+ 1.#+ 2esse sentido, optando por analisar uma dessas alternatias de reestruturação da psicanálise pós3Freud, procurarei por em eid"ncia a proposta de innicott de um modelo de !omem, de sa4de, de adoecimento e de cura, que teria centrado o seu pensamento, especialmente na d-cada de 5/, na questão da e)peri"ncia de ser a partir de si mesmo, ser algu-m em algum lugar, ser real, ser a partir do gesto espont6neo etc+ 7ara ele a e)peri"ncia psicológica de ser corresponde a um elemento fundamental que caracteri*a a própria nature*a !umana, em seu estado de sa4de, ainda 8  7rofessor do 7rograma de 7osgraduação em 7sicologia da 7ontif9cia niersidade ;atólica de ;ampinas (7;3;ampinas#, autor dos liros O método especulativo em Freud   (E;, .//0# e  Freud na  Filosofia Brasileira  (com Ric!ard Siman<e, Editora ES;=>, .//?#+ Entre seus artigos mais importantes, pode3se contar: @FreudAs MetapsBc!ologial SpeculationsC (  International Journal of  Psycoanalysis , .//?# e @innicottAs rejection of t!e &asic concepts of FreudAs metapsBc!ologBC (  IJP  , .//D artigo repu&licado no >nuário do  International Journal of Psycoanalysis  de .// nas suas ediçGes, organi*adas por diferentes editores, em franc"s, portugu"s e espan!ol#+ Email: leopoldo+fulgencioHgmail+com+ $9der do Irupo de 7esquisa @innicott e a psicanálise tradicional: estudos so&re o m-todo de tratamento psicanal9ticoC (JJJ+gpJinnicott+com+&r # grupo credenciado no ;27q (;onsel!o 2acional de 7esquisa#+   . que nem todo ser !umano c!egue a este ponto a partir do qual pode ter uma ida que al!a a pena ser iida+ ecorre desta e)peri"ncia e fundamento, a possi&ilidade de considerar o m-todo de tratamento psicanal9tico como um tipo de relação !umana simplificada, cujo o&jetio - a conquista, pela pessoa do paciente, de sua autonomia  para ser e ier a partir de si mesmo, adaptando3se ao mundo, mas sem perda em demasia da sua espontaneidade+ ;onsidero que esse tipo de desenolimento do que - a teoria e o m-todo de tratamento psicanal9tico, tam&-m corresponde K reali*ação de uma proposta de construção de uma psicologia cient9fica de &ase !umanista, de acordo com alguns dos  pressupostos gerais da fenomenologia, da psicologia e)istencial e da  Daseinanalyse , reali*ação que learia a psicanálise a poder ser caracteri*áel como uma ci"ncia do cuidado+ Mais ainda, creio que a o&ra de innicott pode ser considerada como uma noa proposta de s9ntese ou integração, entre os preceitos da fenomenologia e os da  psicanálise+ ;a&eria, nesse sentido, demonstrar uma s-rie de pontos de cone)ão que sustentariam este tipo de interpretação so&re a nature*a e o lugar das propostas de inicott para o desenolimento da psicanálise, tais como, para citar apenas as mais centrais: que não !á dierg"ncia entre a proposta da fenomenologia (cl9nica# e a  psicanálise, mas que tanto uma como outra conergem para a mesma necessidade de encontrar a erdade da !istória e da e)peri"ncia e)istencial que as noçGes Jinnicottianas de ser, não3ser, falso e erdadeiro  self  , de sa4de, cuidado e do lugar em que iemos, t"m semel!anças, senão identidades, com as noçGes similares encontradas no e)istencialismo e na daseinanalBse, tais como, a de estrutura do ser !umano (  Dasein #, ida aut"ntica e inaut"ntica, ser3com, ser3no3mundo, cuidado com o outro como modo de ser !umano, culpa ou responsa&ilidade necessária, etc+ que innicott tomou estas concepçGes não propriamente ou diretamente dos te)tos dos filósofos, mas de te)tos que procuram mostrar a aplica&ilidade cl9nica destas noçGes 1  &em como, que não se trata de uma aplicação direta, mas de uma apropriação, feita por innicott, de alguns elementos conceituais, associada a uma postura de indiferença ou não3uso em 1  2esse sentido, creio que innicott, em contato com a literatura de sua -poca dedicada K proposta de uma psicologia e)istencialista, dee ter lido alguns te)tos que, a meu er, aca&am por influenciar diretamente seu modo de pensar, dentre eles, o liro  !"istence. # ne$ Dimension in Psyciatry and  Psycology  (MaB, >ngel L Ellen&erger, 10?# e dois artigos de Ellen&erger, um presente no liro  supra  citado e outro, de 10?0, @E)istentialism and its nterest for 7sBc!iatrBC, pu&licado em diersos e9culos de diulgação cient9fica (Ellen&erger, 10?0a, 10?0&, 1051a, 1051&, 100?N1051O#+ 2ão temos not9cia so&re o que !aia na &i&lioteca de innicott, o que nos lea a um campo de especulaçGes so&re o que ele efetiamente leu++    relação a outros (tais como, por e)emplo, a noção de  K  airos , de ang4stia e)istencial, ser  para a morte etc+# dentre outras, cuja lista poderia se alongar significatiamente+ ;a&e, no entanto, aqui, uma ressala so&re a maneira como julgo que innicott se apropriou desse tipo de perspectia teórico3cl9nica de seu tempo: ele era um pensador que tin!a o processo de desenolimento como um telos  P @Qoc"s já deem ter  perce&ido que, por nature*a, treinamento e prática sou uma pessoa que pensa de modo desenolimentalC (innicott, 10!, p+ .# .  P distanciando3se das formulaçGes a&stratas demais ou especulatias demais (tal como ele aaliaa ser o caso das formulaçGes metapsicológicas, dentre elas, de maneira mais eidente, sua recusa K m9tica pulsão de morte, que ele julgaa, por e)emplo, como um tipo de ersão do  pecado srcinal+++ algo a ser rejeitado, como proposta teórica, no desenolimento da  psicanálise#  + innicott não fe* como %insJanger, que procurou projetar os preceitos da anal9tica e)istencial de eidegger na construção de sua psicologia cient9fica (a  primeira tentatia de integração entre a fenomenologia e a psicanálise#, nem se dedicou (pelo que se sa&e at- agora# ao estudo dos filósofos para lear uma filosofia para seu  pensamento, mas sim, mantee3se e procurou3se ater3se ao que ele podia recon!ecer e descreer como sendo a e"peri%ncia psicológica  do ser !umano, na sa4de e na doença, na sua srcem, na sua e)ist"ncia, e mesmo na sua relação com a finitude+ =ale* seja nesse sentido que ele ten!a afirmado que toda descrição tem seu alor e que - mel!or,  para o con!ecimento da nature*a !umana, podermos apreender o que cada uma das  perspectia de compreensão do processo de desenolimento pode tra*er K lu*+ i* innicott, nesse sentido: @2ão - necessário adotarmos um m-todo 4nico e e)clusio  para a descrição do ser !umano+ T &em mais lucratio familiari*ar3se com o uso de cada um dos m-todos de a&ordagem con!ecidosC (10, p+ .?#+ ;onsiderando este quadro mais amplo de questGes, me propon!o, aqui, a focar um de seus aspectos, certamente um aspecto central, mas que não pretende analisar o  pro&lema em todas as suas nuances, mas apenas introdu*ir a questão do ser, diferenciando esta maneira de conce&er o ser !umano da maneira como Freud propUs, e)plicitando, ao menos em grossas lin!as, a diferença ontológica so&re a ida da alma (Freud# ou a nature*a !umana (innicott#+ 2esse sentido, procurarei retomar .  > o&ra de innicott estará sendo citada pela classificação esta&elecida por julmand (1000, .//D#, dado que esta estará sendo usada na pu&licação das o&ras completas de innicott, tal como informou >&ram (.//#+   Qeja em Fulgencio (.//, .//&# uma análise so&re a nature*a e a função da metapsicologia nas o&ras de Freud e de innicott+     &reemente a posição de Freud, procurando, então, analisar alguns aspectos da o&ra de innicott que tornariam poss9el sustentar as !ipóteses acima apresentadas+    F reud e a vida da alma como objeto da psicanálise como uma ciência da natureza Freud ocupou3se de tratar da ida ps9quica do !omem como se essa fosse um tipo de o&jeto pass9el de ser e)plicado em termos de uma s-rie de determinaçGes causais, sem lacunas, como qualquer outro o&jeto da nature*a, dado que a psicanálise,  para ele, só pode ser uma ci"ncia da nature*a+ Freud di*, em 10, que para a  psicanálise @o intelecto e a mente são o&jeto da inestigação cient9fica, e)atamente do mesmo modo que qualquer outra coisa al!eia ao !omemC (10a, p+ .#, e que foi  justamente essa possi&ilidade de tomar o psiquismo como um o&jeto, a&ordáel de uma maneira própria K ci"ncia (entenda3se sempre a ci%ncia da nature&a  e nunca, como diria ilt!eB, de uma ci%ncia do esp'rito #, que constituiria sua maior contri&uição ao con!ecimento (10a, p+ .#+ ?  Mas, segundo Freud, para que o psiquismo pudesse ser tomado como um o&jeto como qualquer outro da nature*a era necessário fa*er alguma coisa para apreend"3lo dessa forma, eitando3se tratar o psiquismo como uma entidade metaf9sica (o&jeto imposs9el para a ci"ncia#, mas como algo que poderia ser e)plicado em sua constituição e din6mica em função de um conjunto de determinaçGes causais sem lacunas+ T nesse sentido que ele propUs que o psiquismo fosse considerado como se     Voel %irman considera que a luta entre paradigmas na psicanálise corresponde a jogos de poder discursios, marcados por uma incomensura&ilidade entre paradigmas, dado que cada paradigma da  psicanálise (Freud, 'lein, $acan, %ion, innicott, para citar apenas os sistemas classicamente recon!ecidos como tal# remeteria a uma realidade que - d9spar da outra+ 2o que se refere K análise glo&al, entre paradigmas, creio que a discussão parece mesmo remeter a uma impossi&ilidade de comunicação,  por e*es apresentando dois !omens em diálogo, mas um não entendendo em a&soluto o que outro está falando o que já foi criticado por Freud, apoiando3se numa refer"ncia a 'ant, figuráel na cena imaginária, rid9cula, na qual um !omem orden!a um &ode enquanto outro procura pegar o leite com uma  peneira (Freud, 1011c, p+ .?D 'ant, 1DD, ;R7 %.#+ 2o entanto, se ol!armos para os  fen(menos  que os defensores de um ou outro paradigma procuram descreer, tale* seja poss9el um diálogo e um aanço na compreensão desses fenUmenos+ ;reio que a ressala feita por Freud em @=otem e ta&4C, colocando a  psicanálise e a antropologia em diálogo, possa serir como indicadora de um camin!o que une,  parado)almente, a impossi&ilidade e a s9ntese de comunicação entre paradigmas d9spares+ i* Freud: @T uma fal!a necessária dos tra&al!os que tentam aplicar os pontos de ista da psicanálise aos temas das ci"ncias do esp9rito, a de oferecer tão pouco dos dois ao leitor+ >ssim se restringem a ter um caráter de incitação eles fa*em ao especialista proposiçGes que ele deerá tomar em consideração no seu tra&al!oC (Freud, 101.31, p+ #+ > meu er, trata3se muito mais do que uma incitação, ainda que não dei)e de s"3lo, dado que se trata de uma procura pela ampliação da compreensão fenomenológica e descritia de determinados fenUmenos, mesmo que isso es&arre no fato de que paradigmas d9spares t"m realidades d9spares+ ?  7ara um estudo so&re o <antismo de Freud, eja Fulgencio (.//1, .//5a, .//D, .//a, .//&#+   ? fosse um aparel!o, por analogia aos factuais aparel!os respiratório, digestio etc+, ou seja, propUs uma  fic)o teórica  de alor apenas !eur9stico (Fulgencio, .//, .//c#+ Em temos gerais, seu modelo teórico corresponde a um tipo de naturali*ação e o&jetificação do !omem+ Em certo sentido, mesmo pondo a pessoa no lugar do sintoma, Freud aca&a por tomar a pessoa como um o&jeto, tale* caindo no mesmo erro que  pretendeu afastar com a sua teoria e seu m-todo de tratamento+ U ma nova ontologia: a necessidade se ser e a tendência inata à integraço  7ode3se afirma que inncott contri&uiu de forma significatia para redescreer os fundamentos ontológicos da teoria psicanal9tica introdu*indo a questão do ser (cf+ rapeau, .//. Roussillon, .//0#, &em como que ele modificou a concepção de sa4de e adoecimento (introdu*indo o tema da integração e da depend"ncia3independ"ncia do indi9duo em relação ao am&iente#, leando a psicanálise do campo das ci"ncias naturais (que o&jetificam o ser !umano# para o das ci"ncias propriamente !umanas, constituindo uma ci"ncia o&jetia da nature*a !umana que toma o tratamento  psicoterápico de &ase psicanal9tica como uma cl9nica do cuidado (cf+ innicott, 105f# com a pessoa e não mais do tratamento de uma doença+ 7ode3se considerar que innicott su&stituiu a noção freudiana da pulsão (conceito fundamental conencional, em relação ao qual, mesmo sendo um ser m9tico, não se pode prescindir# pela de  ser   e necessidade de ser  , considerando3a, então, como um noo fundamento ontológico para a ida afetia do ser !umano+ innicott se refere K noção de ser como sendo uma e)peri"ncia psicológica, ontologicamente falando, anterior Ks determinaçGes instintuais, al-m de considerá3la um @ser m9ticoC, tal como Freud considerou quando propUs a noção de pulsão+ innicott não se apoia diretamente numa proposição filosófica, nem &usca as definiçGes do que - o Ser para, depois, aplicá3la aos fenUmenos, ao menos, não fa* isso nos seus te)tos+ Se percorrermos a sua o&ra K  procura do uso do termo  ser   e da e)pressão continuar a ser  , encontramos desde refer"ncias usuais at- usos propriamente conceituais, nos quais ele associa esta noção com sua concepção so&re o que - a nature*a !umana, so&re o que ersa a ida (innicott, 105D&, p+ 1D#+ > maior parte de suas referencias - feita na d-cada de 5/, ou seja, na parte final de sua ida, o que me parece a introdução madura de uma maneira de conce&er o processo de desenolimento afetio, que lea em consideração todo o
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